Historia da Capoeira
RITUAIS DA CAPOEIRA


Ritualização da Luta



        A capoeira, nomeadamente a capoeira angola, é uma ritualização de luta. Como muitos animais na natureza, os capoeiristas deglaiam-se, testam os seus limites, as suas forças, sem por isso comprometerem definitivamente a integridade física do oponente.
        Esta atitude é mais forte no estilo de Angola, pois o estilo Regional é mais declarado e objectivo, enquanto a supremacia no jogo de Angola, é subtil, e só alguém que conheça o jogo se apercebe das nuances, na capoeira Regional, as coisas são mais explicitas.
        Isto levou a que a população em geral visse a Regional como sendo melhor que a Angola.
        Essa é uma discussão que perdura até hoje, mas que crêmos ser esteril, pois ambas abordam aspectos diferentes do jogo, é preciso saber dominar o maior número de aspectos, pois o capoeirista é um camaleão.





Saudações



        A saudação aos mestres, donos-da-roda, ou antepassados é também muito comum na capoeira.
        A filosofia da capoeira veio de África, de povos em que se louvava o conhecimento adquirido através da experiência, assim os "velhos" eram considerados os tesouros vivos das populações, e tinham em si uma mais-valia.
        Nestas culturas é feito o culto aos antepassados, são eles os nossos intervenientes no reino dos mortos, além disso é também uma cultura animista, ou seja em que os elementos (ar, terra. água, rios, fogo, montanhas, céu, etc.) são personalizados, existe uma entidade, um deus que reje tais elementos.
        Assim, e como forma de homenagem e/ou como forma de pedido de ajuda, os capoeiristas saúdam o berimbau gunga é a materialização da capoeira e também de todos estes deuses (Orixás), antigos mestres, donos-da-roda, e antepassados.





O Mestre



        Os ensinamentos passam de geração em geração, mantendo-se dessa forma a chamada inicial.
        Ao contrário do que muita gente pode imaginar, alguns Mestres modernos não perderam o hábito de ritualizar tudo aquilo que é importante para a Capoeira.
        Assim sendo, não podemos ter dúvidas quanto à importância dos rituais da capoeira, devemos tratar o assunto com a maior seriedade e profundidade, estudar, pesquisar, ir às fontes ainda vivas, buscar as verdadeiras origens.
        O respeito ao mestre é, provavelmente, uma das mais antigas e importantes tradições existentes na capoeira.
        Pelo que se sabe, já nas antigas rodas o mestre figurava como expoente máximo, assumindo o papel de comando na realização dos ritos da roda.
        Um Mestre, não é só um Mestre de Capoeira e sim um Mestre da vida. Respeite-os.



O Mestre


O poder da roda



        Desde antigamente que se conhece o poder do círculo, é uma forma que fascinou inúmeras civilizações, a sua simbologia de não ter princípio nem fim parece adequar-se à frase de Vicente Ferreira Pastinha: "(...) seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio dos mestres.".
        Pastinha referia-se à capoeira, mas a capoeira é um círculo, todas as coisas voltam e rodam na capoeira, tudo volta à sua origem.
        Os próprios movimentos da capoeira são na sua maioria circulares, e reflectem essa filosofia do círculo.
        O círculo é também energia em movimento, e é por isso que os capoeiristas antes de entrar na roda somente circulam no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.
        É importante que o capoeira saiba isto, ele não pode ir contra as energias do Universo, ele aproveita a energia, ele movimenta-se sinergéticamente, colectando a energia dos participantes à medida que andam na volta ao mundo.
        É assim ser capoeira, aproveitar o momento e vogar na onda, não resistindo ao golpe, nem às cabeçadas da vida.





Apertando as mãos



        O ritual de apertar as mãos na capoeira está relacionado com a realidade estanque da capoeira.
        Se por um lado aquilo que acontece na roda nos deve servir de aprendizado para a vida, por outro lado existe o círculo que também é uma barreira, de modo a que nada deve transpirar para fora da roda, especialmelmente conflitos e inimizades.
        A capoeira também era usada nos seus primórdios como instrumento de normalização social, ou seja, as disputas e conflitos eram resolvidos na roda de capoeira, e esses conflitos tinham que morrer na roda, assim, começa-se o jogo dando as mãos para demonstrar o respeito pela pessoa com quem vamos joga, e acaba-se o jogo de mãos dadas como símbolo de que o que se passou na roda não terá repercussões fora dela.
        A luta é dentro do círculo.





Chamada



        Um dos rituais da capoeira tradicional.
        As chamadas, também conhecidas como "passagens", erroneamente interpretadas como simples momentos de descanso durante o jogo, constituem um momento de extremo perigo; fazem parte dos rituais da capoeira tradicional, e visam a despertar a malícia dos seus praticantes.
        Quando for chamado, aproxime-se com bastante cautela, pois, dentro das normas da capoeiragem, o capoeirista que chama poderá aplicar o golpe que desejar, caso o outro aproxime-se sem o devido cuidado.



Chamada
As chamadas, erroneamente interpretadas como descansos, constituem um momento de extremo perigo.


A volta ao mundo



        Quando os dois jogadores realizam uma ou mais voltas dentro da roda, chamamos a isso volta ao mundo.
        Quando um capoeirista que estava a realizar um jogo é chamado, através da compra , por um outro capoeirista para jogar.
        No caso de este estar, ou quiser ir para o pé do berimbau para iniciar este novo jogo, pode pedir a volta ao mundo.
        Quando um jogo está a desenvolver-se com uma certa linguagem e, de repente um dos jogadores decide ser um pouco mais objectivo, aplicando um movimento que mude a dinâmica do jogo, fazendo com que o outro jogador, vacile ou caia, este que foi enganado, no calor do jogo, pode, se quiser, pedir a volta ao mundo, como forma de concentrar-se para a nova postura que terá de assumir e quebrar a concentração do seu oponente.
        Em deteminadas circunstâncias, o jogo pode estar com os ânimos um pouco mais exaltados, pode-se então pedir a volta ao mundo, como forma de acalmar as coisas, ou até mesmo, pede-se a volta ao mundo num momento no qual se está em vantagem no jogo, como forma de irritar o parceiro.
        O sentido em que é feita a volta ao mundo, é anti-horário, no entanto, vê-se em determinados momentos, os capoeiristas fazerem a volta ao mundo no sentido horário.
        Alguns cuidados que se devem ter na volta ao mundo.
        Não se deve correr ou andar muito perto do outro jogador durante a volta ao mundo, pois durante a volta, a malícia e a malandragem podem ser um factor surpresa, pois pode-se aplicar golpes ou movimentos durante a volta, chamando-se logo em seguida para o jogo.
        Em relação à parte musical, se quem estiver comandando a roda cantar a conhecida música:

        "oi ia ia mandou dar
        uma volta só (coro)
        oi ia ia mandou dar
        uma volta só" (coro)
        Os jogadores devem retomar prontamente ao jogo.

        Como vemos, a volta ao mundo pode ser feita por diferentes motivos, ambos os jogadores devem estar atentos durante a volta, pois o jogo pode mudar a partir do que irá ou não acontecer durante a volta ao mundo.

        "Na volta que o mundo deu
        na volta que o mundo dá".





A Indumentária



        A indumentária utilizada hoje em dia representa, de forma autêntica, toda a diversidade da capoeira, pois dependendo do praticante e estilo no qual este se encontre inserido, a indumentária adopta diversas características.
        Antigamente, as maltas de capoeiras do Rio de Janeiro, os brabos do Recife e os Valentões da Bahia, usavam calças folgadas, com boca de sino, que poderiam chegar até 28cm, cobrindo o pé todo, utilizavam também chapéu, camisa, gravata, e ainda um lenço de seda amarrado ao pescoço, como forma de manter a camisa limpa do suor, e proteger o capoeira contra golpes de navalha, na medida em que esta não consegue cortar a seda.
        No entanto, também na Bahia, devido à proibição da capoeira, os capoeirístas, que na sua maioria trabalhavam no cais do porto como estivadores, não querendo serem identificados, usavam os trajes diários, existindo, é claro, algumas excepções.
        Normalmente usavam calças comuns, arregaçadas, camisas folgadas, tipo abadá (vestes africanas, utilizadas pelos escravos, feitas de saco de açúcar ou farinha de trigo), andavam normalmente descalços ou calçados com chinelos de couro.
        Porém, aos Domingos, muitos usavam seus melhores trajes, calça e palitó (fato) de linho branco, camisa branca, sapato tipo bico fino, muitas vezes bicolor.
        Outros ainda, usavam um brinco de ouro na orelha esquerda, como símbolo da sua valentia, alguns historiadores acreditam que este costume tenha sido herdado dos Angolanos.
        Dr. Decânio, ilustre discípulo de Mestre Bimba, defende a origem baiana, portuária e recôncava da capoeira.
        Diz também que devido à proximidade que os capoeiras tinham dos marujos,adoptavam em parte a sua forma de vestir, contudo, esta relação foi também de muitos conflitos.
        Os marujos utilizavam calças boca de sino, como forma de, em caso de emergência, durante um naufrágio, poderem tirá-la rapidamente, dando vários nós nas extremidades, transformando-as em bóia.
        Para os capoeiras, além de serem convenientes para os seus movimentos, a calça boca de sino, servia também como forma de esconder armas brancas, como a navalha ou a faca.
        Sabe-se que uma das formas que a polícia tinha de abordar um suspeito, e de o coagir, era atirar um limão para dentro das suas calças, e se o limão caísse ao chão, prontamente era aplicada a conhecida Ceia dos Camarões.



Malha Capoeira Angola


Indumentária na Capoeira Regional



        Na Luta Regional Baiana (Capoeira Regional), Mestre Bimba aboliu o uso dos sapatos, adoptou a indumentária onde era predominante a cor branca, herdado do hábito domingueiro de muitos capoeirístas, que diziam que o bom capoeira era aquele que terminava um jogo sem sujar a roupa.
        O branco também tinha o significado de ser a cor das vestes dos antigos escravos.
        Segundo depoimentos de muitos dos seus discípulos, Mestre Bimba era muito rigoroso com a higiene dos seus alunos.
        Mestre Zoião, aluno de Mestre Bimba, no seu livro "Arte da Capoeira", comenta, "ai de quem comparecesse na aula de uniforme sujo".





Indumentária na Capoeira Angola



        No movimento da Capoeira Angola, foi Mestre Pastinha o grande responsável pela criação de uma uniformização.
        Adoptou para a Capoeira Angola as cores do seu time do coração, o Ypiranga, passando os seus alunos a vestirem calças pretas e camisa amarela, sendo obrigatório o uso do calçado.
        Em apresentações feitas na sua academia, onde os seus alunos representavam pequenas cenas teatrais, e local onde o público delirava com sua tradicional roda de capoeira, era comum os seus alunos trajarem camisas de cores lisas e estampadas, tendo como detalhe um nó na altura da cintura.



Indumentária na Capoeira Angola


Indumentária en la Capoeira Regional
Mestre Pastinha foi o grande responsável pela criação de uma uniformização no movimento da Capoeira Angola.


Indumentárias Actuais



        Com o avanço da tecnologia, novos tipos de tecidos apareceram no mercado, a chamada elanca, uma malha resistente e de boa elasticidade, foi adoptada por muitos grupos de capoeira.
        Alguns grupos de Capoeira Regional da Bahia, passaram a usar cores diferentes de calças, para cada ocasião, definindo uma cor para o treino, outra para a roda e apresentações, e ainda uma para quando forem fazer visitas a outras academias.
        Outros, ainda mantêm unicamente a cor branca.
        O nome abadá, que antigamente referia-se apenas à longa veste branca dos negros, passou também a denominar a calça que hoje em dia é utilizada na capoeira.
        As malhas de várias cores, conhecidas em alguns grupos como calça de passeio, que são utilizadas para rodas de ruas, apresentações e para uso informal fazem também parte da indumentária dos dias de hoje.
        O modelo adoptado pelos grupos modernos, é uma calça com cintura baixa, sem elástico, moldada ao corpo, e com boca de sino, lembrando a tradição das conhecidas maltas.
        Já na capoeira Angola, continua-se a utilizar a indumentária preta e amarela, no entanto, muitos grupos, costumam, utilizar calça e camisa brancas, ou ainda calça preta e camisa branca, diversificando ainda mais a capoeira.
        Existem ainda os praticantes da chamada capoeira de rua, que não adoptam na sua maioria nenhum tipo oficial de indumentária, misturando um pouco de cada, do que já existe.



Indumentárias Actuais


Iê!



        Interj. corruptela de ê! Seu uso é exclusivo nas canções de capoeira.
        É como o mestre de Capoeira chama para si a atenção de todos.





Religiões Africanas e a Capoeira



        Talvez a teoria mais popular sobre as origens da capoeira e mesmo a lenda divulgada de boca a boca é que a capoeira foi inventada pelos escravos em Brasil.
        Quando os senhores de escravos estabeleceram as senzalas, eles estavam conscientes do poder de orginazação e da comunidade.
        Portanto, para obter um poder e dominação absoluta dos escravos, todas as tribos eram separadas. A união dos escravos era o pior temor dos seus senhores.
        Embora as tribos rivais fossem colocadas juntas, os homens brancos deixaram de pensar que todos compartilhavam uma crença comum: a religião.
        Esta religião era o candombé e ainda hoje é popular entre afrobrasileiros.
        Muitos dos rituais da capoeira vieram do candomblé.
        Assim, como a lenda diz, como os africanos se uniam por sua crença comum do candomblé, poderiam se unia para formar a capoeira também.
        No entanto, as raízes da capoeira nasceram fora das senzalas onde absorveu uma variedade de componentes tais como: danças, culturas, crenças, rituais, religiões e batalhas.
        A capoeira é uma mistura de muitos elementos que foram contribuídos por várias tribos africanas diferentes.
        Os escravos inventaram a capoeira como luta, mas disfarçavam-na como se fosse uma dança para que os senhores de escravos não percebem o que estava acontecendo.
        Os senhores prohibiam aos escravos de lutar porque eles temiam revoluções.
        Algumas pessoas dizem que o desenvolvimento da capoeira como luta era especificamente como forma de rebelar-se contra os senhores de escravos.
        Mas, se isso é verdade, por que a capoeira? Se a capoeira não usa armas, como poderia ter sido suficente em lutar contra os condutores? Segundo o Nestor Capoeira, a capoeira não precisava ser disfarçada como luta:
"Cerca de 1814, quando inicio-se a repressão sobre a cultura africana outras formas de dança africana sofriam proibições juntamente com a capoeira, assim não era preciso disfarçar a capoeira como uma dança."
        Certas conclusões em relação às origens da capoeira possuem fatos mais concretos, e por isso são mais acreditáveis do que outros.
        A capoeira é uma forma de arte única, pertencendo a sua própria categoria.
        Não há história de capoeira em qualquer região geográfica do mundo fora do Brasil.
        Inclusive em nações que exploravam o trabalho dos escravos africanos.
        Outras formas de expressões culturais com raízes africanas tais como: música, instrumentos músicais e danças eram raticadas e ainda são praticadas nestes países, mas a capoeira não!
        Portanto, é muito mais fácil assumir que a capoeira foi inventada pela nação do brasileira.






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